Sinais de vida em fontes termais com 3,5 bilhões de anos podem mudar o alvo da missão de Marte.

A descoberta de vida em torno de fontes termais de 3,48 bilhões de anos na região de Pilbara, na Austrália Ocidental, pode influenciar o debate sobre onde a vida apareceu pela primeira vez na Terra. A notícia também pode afetar nossas escolhas sobre o melhor lugar para procurar vida em Marte.

Darwin propôs que a vida começou em um “pequeno lago quente”, mas nos últimos anos os locais que mais se assemelhavam a isto, os arredores de fontes termais vulcânicas, foram trocadas como favoritas por fontes hidrotermais no fundo dos oceanos. Uma conclusão entre essas teorias concorrentes daria forma às nossas escolhas sobre onde procurar a vida além da Terra. Marte uma vez teve suas próprias fontes termais, enquanto Europa e Enceladus podem ter fontes hidrotermais hoje.

A teoria das fontes termais tem sido atormentada pelo fato de que a evidência mais antiga que temos para a vida em tais lugares tinha 400 anos, e sabemos por relógios moleculares e fósseis marinhos que a vida tem pelo menos 4 bilhões de anos. Além disso, enquanto plantas e animais não chegaram à terra até muito mais recentemente, os micróbios foram encontrados em locais terrestres que datam de 2,7-2,9 bilhões de anos. No entanto, mesmo isso foi considerado intrigantemente recente se as origens da vida foram de locais rodeados por terra. Seria muito mais compreensível se a vida demorasse mais de um bilhão de anos para sair dos oceanos, do que se tivesse saído de piscinas rodeadas de terra.

Assim, o anúncio, feito pela estudante de doutorado Tara Djokic, da Universidade de Nova Gales do Sul, de que rochas que sem duvidas são terrestres com quase 3,5 bilhões de anos contêm sinais de vida, desloca o debate. Djokic enfatizou que sua descoberta não prova que a vida começou nas fontes termais, mas remove argumentos contra essa idéia.

Podemos nunca ser capazes de estabelecer conclusivamente o lugar de origem da vida na Terra, mas no espaço é uma questão diferente. Todas as missões a Marte foram motivadas em parte pelas esperanças de encontrar a vida, mas o Mars 2020 rover visa buscar mais diretamente. A lista de locais possíveis para esta missão tem sido lentamente encurtanda e Djokic aponta que dos três locais restantes, as colinas de Columbia, onde o Spirit pousou, parece conter os restos de uma fonte termal.

 

Uma fonte termal moderna. As áreas coloridas indicam a presença de vários tipos de vida.

Djokic disse que é possível que a sua descoberta vá balançar o debate a favor de Columbia Hills, uma vez que “Se a vida pode ser preservada em fontes termais tão remotas na história da Terra, então há uma boa chance de que poderia ser preservada nas fontes termais de Marte também”. Por outro lado, se as fontes termais eram realmente o ponto de partida para a vida na Terra, é uma má notícia para missões propostas para estudar luas do Sistema Solar exterior, onde uma camada de gelo oculta um oceano com prováveis aberturas hidrotermais abaixo.

Djokic foi capaz de determinar que as fontes que ela estava estudando estavam acima do solo, ao invés de estar em partes rasas do oceano, porque elas contêm geyserite, um depósito mineral restrito a ambientes de água doce. Geyserite é formado quando os fluidos ricos em sílica de alta temperatura são expostos à água. Antes de seu trabalho, nenhuma geyserite tinha sido identificada com mais de 400 milhões de anos. Djokic disse que não estava claro por que uma diferença tão grande no registro fóssil deveria existir, mas ela apontou que os ambientes vulcânicos são, por sua natureza, altamente mutáveis, e muitos lugares mais antigos podem ter sido destruídos em erupções.

Descobrir o tal geyserite antigo seria interessante por si só. No entanto, a razão pela qual o trabalho de Djokic foi publicado na revista Nature Communications é que, dentro das mesmas antigas fontes, ela encontrou estromatolitos, as comunidades em camadas de micróbios que, em forma fóssil, representam algumas de nossas mais antigas evidências de vida. Outras indicações de micróbios, como bolhas bem preservadas, também foram presas nas mesmas rochas. “Isso mostra uma variedade diversa de vida existia em água doce, em terra, muito cedo na história da Terra”, disse o co-autor Professor Martin Van Kranendonk.

Algumas das coisas que Djokic encontrou parecem muito com fósseis que vimos antes em outros ambientes, mas ela disse que as bolhas e texturas vistas em algumas das rochas parecem mais com aquelas vistas em torno de fontes termais modernas do que em outros locais antigos. Embora saibamos pouco sobre os micróbios que deixaram essas assinaturas para trás, Djokic disse que provavelmente havia uma mistura de formas de vida vivendo fora da luz solar e da energia química que as fontes fornecem.

Estas rochas na Formação Dresser, Austrália Ocidental, incluem camadas de geyserite, demonstrando a presença de fontes termais de 3,48 bilhões de anos atrás.